Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens

24 de abr. de 2010

K

  
    (Talvez um futuro conto).


    “Quero dizer que, na realidade, é fato que nunca acontece nada conosco. Todos os acontecimentos que podemos contar sobre nós mesmos não passam de manias”.
Ricardo Piglia


     Sempre temi situações claustrofóbicas, mas agora é normal. Tudo agora é normal. Estou no pequeno hall entre a porta do meu apartamento – ouço X pigarreando segundos após nos despedirmos (estamos lado a lado e ela já é alguém completamente sozinha caminhando compassada até a sala, suspirando, reparando nas manchas das paredes) – e o elevador. A minuteira liga (ela diz, olha, aproveita esse tempinho de luz, seu infeliz !), desliga e a escuridão é ferida somente pelas soleiras das portas que escoam uma fina lâmina da claridade da manhã – claridade já filtrada pelas janelas, pelos ambientes das salas e o choque frontal na escuridão das portas de madeira (claridade opaca...vida opaca). Os elevadores trabalham freneticamente nesse horário, as manhãs das terças-feiras são construídas no tempo escasso, e é esse o horário que devo sair, uma convicção irredutível – sair às 08:15 hs. Ouço os elevadores grunindo e penso na histeria do casal que ontem assustou quando seu filho que recém começou a caminhar (o gramado do parque estava molhado daquelas chuvas que caem a tardinha misturadas ao sol e que obrigam os vendedores ambulantes a recolherem suas tábuas e lonas gastas e, junto com os passantes pegos desprevenidos, refugiarem-se embaixo das marquises ou toldos das lojas, sempre sob os olhares nervosos e amesquinhados dos proprietários; ela apareceu molhada de chuva e da luz da tarde) disparou em direção a rua em frente ao condomínio. A escuridão do hall é ladeada por quatro pequenas lâminas cintilantes no nível do chão e duas portas frontais que guardam dois elevadores frenéticos que passam pelo meu andar cheios de vozes que vão se estinguindo rumo ao andar térreo. A saída de emergência com o acesso à escada está trancada. Vou movimentando meu braço esquerdo por diversas vezes para que a minuteira religue (Aproveita essa luzinha seu filho da puta !), como um reflexo doentio, como um trauma de guerra.

12 de abr. de 2010

Visita. (uma crônica)


Entro e ouço o seguinte murmúrio em mim:

" A casa da infância, o bloqueio no transcurso do tempo. O passado suspenso no ar. Tudo está e estava lá. As mesmas brotoejas nas paredes com as formigas de antes trazendo a barata que matei há anos atrás dentro de uma tarde também morta. Béla Bartók ainda finaliza o scherzo das sombras dançarinas no canto direito do quarto e na minha cama o meu corpo de 25 anos congela. Tenho que ter mais amigos, tenho que explorar os milhões de poros de quem eu amo, tenho que compeender Rilke à exaustão, tenho que matar os meus mortos. Meu corpo de 25, de 26, de 27, de 30 na mesma tarde com as luzes sugadas pelas nuvens negras. Gostaria de compreender melhor um crisântemo, o REM dos olhos antes do pesadelo, o fluxo do tédio em minhas artérias. E a sinfonia de mármore desse tempo fulminado."

Encontro um poema escrito no dia em que parti: 

" CASA DO PAI


A velha casa já pesa
Nas retinas as costas do velho
Pai certos silêncios in-


Cômodos quase ao léu
Os seis violões emborcados
Numa mesma parede três


Madonas os quatro relógios
Calendários vindouros
Armários inapeláveis

Árvores.".