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28 de set. de 2016

Rosto de retrovisor

Seu rosto pelo retrovisor
enquanto velhas notícias perambulam
pelo rádio: almas chacinadas,
                    flores pedindo o retorno à semente,
                      o tráfego impossível do amor  -

Seu rosto pelo retrovisor :
um pouco de sol
sorri nos seus cabelos

Dias livres

Acordo entre amigos - 
embalar os problemas
comer pães com geleia de amora
fumar marihuana &
tentar entender o silêncio
mesmo ouvindo ao mesmo tempo : 
Knocking on heaven´s door

Acordo entre amigos
o pequeno lapso dos nossos filhos
rolando na grama 
ensolarada

A viagem acabou

    Dia de retorno, Luca:
a saudade se aprende assim -
sempre retornando, não importa 
quando, não importa
como - é a vida comum
nos puxando 
do sonho - 
Luca,
ainda somos muito crianças
para tanta realidade

Aniversário do filho

O tempo
    come meus cabelos -
mastiga meu rosto e
planeja
o meu encontro com os vermes

Meu filho
   acaricia o tempo e
faz dele o seu cão -
coloca o tempo na coleira,
solta, brinca de
esconder

Enquanto minha sombra arqueja,
a do meu filho cresce

Amor pela manhã

A mesa
O café
Os planos

a madrugada nos deixando

Mas os seus pés vivem em outro
tempo
           -  e acariciam os meus

Fim de festa

A noite colhe
         
                    macia

 os nossos filhos -

                  um
                             a

um -

                                 Estrelas

Portão da escola I

Olha só

vibravam
           as folhas caídas
           - uma gota de sol em cada uma -
as pétalas
           flutuando
                      pelo caminho
                                  das formigas -

(Vibrava até
minha solidão invencível
como uma aura podre )

E tudo ficou de um súbito colorido -

Olha só
coisas do seu sorriso,
                           filho

Morte do pai

  De repente
   lá estou
   com suas roupas
   puídas
   em um saco plástico negro

  No carro
   o saco plástico
   pula - negro -
   a cada lombada
   ou buraco

A única flor da rua Rosália de Castro

   Não. Nunca perceberia aquela flor única na rua Rosália de Castro talvez pelo ocaso da rua Rosália de Castro cada dia mais insignificante entre um muro de colégio e casas conjugadas de muros zarcão não nunca, a flor única
       nunca a flor única da Rosália de Castro
    E isso me incomoda me incomoda como um espinho alojado na unha um dente inútil pois vivo ao lado da rua Rosália de Castro ao lado da flor da Rosália de Castro da
                   flor única da Rosália de Castro
   Não. Nunca irei lá nunca iria lá sempre haveria um empecilho um contratempo um cisco no olho nunca veria
                 a flor única
                 a única flor da trêmula rua Rosália de Castro
   E no entanto como eu preciso dessa flor preciso ouso dizer que a flor solitária da rua Rosália de Castro é tudo o que mais eu preciso mais do que tudo o que tenho mais do que todos os produtos e amores que a vida me oferece acima do meu amor próprio e do devir -
             
                   Pois a única flor da
                   Rosália de Castro
                   é, na verdade,
                                        uma chave -

Casa da infância II

O primeiro
caramujo o
primeiro
jardim
         o primeiro cão, aquele
                        dente quebrado no fundo do quintal -

         telas per-
         feitas garatujas hoje -

Viraram
conta
bancária,
              numa tarde de plástico

Casa da infância

   Vai-se
    a casa das
    pessoas que
    se foram -

   Um museu
    de gritos e
    sombras -

   Digitais
    imperceptíveis
    nas paredes -

   Teto
     impregnado dos
     almoços e
     jantas calados -

   Cupins
    hibernados em
    gavetas
    frias

   Vai-se
     a casa
     sem nenhum fotograma
     ou rastro

   Estrada
      irrecorrível

Insight

Debate intenso : o vento & as pombas

Vinha
atormentado : morrerei

Mas a manhã
pediu um aparte : ao meu lado o sol
                             degustou seus cabelos


16 de nov. de 2014

Nua

    Agora
 
    reatar religar o que mais

    seja porém nada

    é mais certo agora do que olhá-la e

    olhá-la e

    olhar até a exaustão até

   esse olhar tornar-se ser

   então

   sê-la

   ser você e fazê-la

   me olhar e olhar

   exaurindo a retina

                  desse
                        agora.

25 de out. de 2014

Retorno



   Após raspar a panela
   do dia a dia diabo lento
   perfeito kamikaze alheio
   estendo
   minhas mãos

   peço você
            um alento

   meu dedo contorna teu lábio
   como há muito tempo
   socorro

   socorro

   socorro há muita realidade aqui
   estamos transfigurando o prazer
   reabilitando dogmas perdendo
 
   perdendo e

   perdendo o vento escrevendo
   certo com árvores tortas
   ninguém suporta

  uma porta

  aberta




6 de jul. de 2013

Bolsa dos olhos.


O silêncio do play-
ground sem crianças
fez-se
barras coloridas, gira-
giras e catavento - morto.

O silêncio das crianças
que se foram
são essas árvores, esses
artrópodes de arame essas
bagatelas (drops usados)

beijos amiúde deflagrados
e cobertos pela areia.

O silêncio
tem construído monumentos,
cidades-aladas,
labores beneditinos e um velho
sabor
de alçapão
na alma.

15 de dez. de 2012

Réstia

Aquilo que ficou de ti

- frêmito e grandeza -

como se o poema
dos sonhos
fosse esquecido
a partir da palavra

                    oceano

5 de ago. de 2012

Paternidade.

Seguro a sua mão -
            a mão calosa de meu pai
                    a mão indecisa de minha mãe
                            a mão doente de minha irmã (linhas incompreendidas) -
                                                                                                      Seguro a sua mão
                                          e voltamos por entre as folhas mortas
                  a tarde anoitecendo os jasmins:
           você é a resposta imensa
para a represa que eu sinto.

1 de ago. de 2012

Luca e a nave de acrílico



 O quilate de
quando a vida me acena através
da sua gargalhada
segue uma noção de valor ainda
não inventada – é como se
eu tivesse menos do que nada e em
segundos esculpisse em uma estrela o seu rosto
e a tatuasse dentro do meu peito
ou então se
simplesmente
como os primeiros albatrozes voássemos
sob um mundo ainda por se construir...

21 de mai. de 2012

Dylan Zimmerman.

Ele -
       ele era o posto de gasolina abandonado
            tarde fria de domingo de março
era o cheiro resquicial do cão negro
uma porta entreaberta
                        os dois lados na penumbra
era uma planície infinda e um olmo
              no meio, a copa estilhaçada       nervura nostálgica

e coisas rápidas de janela de viajante
mirantes desativados            pianos inúteis

plantas sem-vergonhas em ruas prosaicas
parques de diversões fantasmas      Conney Islands

The Ballad of a thin man  desatando dos caminhões de lixo
na Highway '61 da memória

tudo o que se descartava
ele desenhava em sua Stratocaster

e ele era o que ele desenhava

e mais nada.   

14 de mai. de 2012

Rebrilhos.

Avizinhar-se ao mar       merismas
gaivotas virando nuvens
                          mariscos
esposa e filho na rede de lua minguante
                                             
                                              distantes
salvos da violência elétrica

repouso translúcido de águas-vivas
mortas ao longo do cais
                                                                audaz
a onda quer apagar o relâmpago

manhã
a lua agora é sol
                         esposa e filho
                                 filho e esposa

num raro novelo de paz